Todo mundo quer ser amado, ter amigos, sentir-se seguro para confiar em alguém. Correto? Não necessariamente. Depende da pessoa. Depende de outros pequenos fatores também. Mas, em suma, existe um punhado de gente que não se sente confortável quando é amado e quando tem um amigo em que pode verdadeiramente confiar. Existe um punhado de gente que é tão desconsertado e tão mal inserido na arte de amar que vive a machucar quem tenta protegê-lo – inclusive de si mesmo. Não são poucas as pessoas que vivem a perder aquilo que declaram efusivamente desejar encontrar. Também não são poucas as circunstâncias em que o medo fala mais alto e viver fica em segundo plano.
Hoje tive vontade de ler as suas cartas e sentir manifesta em mim aquela mesma alegria e carinho imensurável que você me despertou desde muito tempo. Assim o fiz e, sinceramente, não saberia te descrever exatamente qual foi o sentimento que as tuas palavras causaram em mim. Apesar de todos os meus pontos de interrogações em relação a você, uma dúvida eu nunca tive: eu gostava muito, muito mesmo de você! Na verdade, esse é um verbo que não se aplica somente no passado, afinal ele nunca deixou de ser conjugado em meus dias. Talvez em alguns momentos eu não tenha sabido vivenciar essa emoção, talvez em algum momento você também não o tenha sabido como me confessara certa vez, o que sei é que apesar de meu silêncio, tudo o que te disse continua valendo e que eu nunca desisti de você. Eu só queria que soubesse disso.
Já faz algum tempo, mas o sentimento que em mim permanece, reveste cada pequena lembrança com a mesma cor e o mesmo tom das coisas que pulsam na vida lá fora. Você continua acontecendo em mim. Engraçado como até o teu silêncio grita aos meus ouvidos e tua ausência é sentida como a mão que toca uma ferida. Inúmeras vezes desejei te dizer estas coisas e tantas outras, e se agora ensaio fazê-lo nessas poucas linhas, não é porque me atrevo a pensar que conseguirei verbalizar aquilo que toda minha verborragia durante tanto tempo não soube, - ou não pode -, te fazer conhecer. Não. Essa é apenas mais uma tentativa de alcance, ou talvez, simplesmente uma chance que estou a me dar. Uma nova chance de resgatar o que de mim em meio a tudo isso se perdeu e o que de nós eu espero poder comigo levar.
“Carol, você assusta.” Ouvi isso não tem muito tempo com certo pesar, por mais que eu soubesse que a pessoa que deferia esta sentença tivesse a melhor das intenções e que isso iria passar, que essa digamos visão romântica acerca da pessoa que vos fala iria findar. Sabia disso pelo simples fato de essa não ser uma situação exatamente nova pra mim. E pela simples circunstância de que todo susto é seguido de fuga. De certa feita uma pessoa declarou que eu a assustava, pois a fazia pensar, pensar se um dia havia tido uma possível doçura que eu preservava e que ela nem sabia se de fato um dia possuíra. Sinceramente, não sei o que dizer a respeito disso. Na verdade, esse é o tipo de momento em que as palavras me faltam e o silêncio prenuncia uma ruptura. Estranhamente, ao longo da minha vida as pessoas que me ofertaram as palavras mais bonitas, foram aquelas que se comportaram de maneira mais contrária ao que diziam. Talvez normal seja não causar reflexão. Talvez normal seja ser superficial. Possivelmente isso não cause nenhum espanto. E quem sabe, assim se viva sem tantas marcas e sem tantas histórias pra contar.
Carolina Braga, 12 de set. de 10.
“A inocência é boa pra quem sabe amar.” Rosa de Saron ;D
Já faz algum tempo que pensava em fazer aqui um adendo que pode até soar como uma obviedade, - ou não -, mas que diante das circunstâncias atuais, ou melhor, dos dias atuais, e do respeito que tenho pelas pessoas que possam por ventura ler o que aqui escrevo, gostaria de ressaltar que esses pequenos textos são apenas crônicas, que falam sim um pouco de mim, como falam um pouco de outros, mas que as coisas não acontecem exatamente nessa mesma ordem e às vezes os outros se classificam assim mesmo: no plural. Tendo em vista isso, posso falar de mim, de outra pessoa e existir ainda um terceiro elemento que pro segundo não existe qualquer relação. Sinto-me sinceramente um pouco enfada em tentar explicar as motivações do que aqui registro, mesmo por que, por vezes essas motivações são apenas ilustrativas. Me pego admirada com a ironia da vida e esse espanto me dá a ciência do quanto as palavras, vez ou outra, - assim como todo o resto - podem tomar a forma que bem quiserem e até mesmo fugir ao nosso controle. Já escrevi aqui sobre meu sentimento em relação a minha avó e houve quem o interpretasse como uma carta de uma mulher apaixonada a um homem ingrato. Muitas coisas parecem, há muito que fica a espreita, a essência pede um olhar demorado.
Desde o início as coisas não foram fáceis para nós. Nossa relação sofria de uma espécie de falta de entendimento crônico. Não compreendia de onde ele advinha, nem por que existia, mas ele estava ali, sempre a nos espreitar de maneira às vezes pouco nociva e em outras, destrutiva. Talvez as coisas fossem diferentes se as circunstâncias fossem outras, - talvez não. Talvez isso não tenha tanta importância pra você agora, - como não tinha antes – eu não sei e nesse momento esse não saber dói bem menos e já não é mais busca premente pro que quer que seja. Acho que poucas coisas na vida, de fato, necessitam dessa tal de urgência. Ontem eu te disse: “Você é livre, se quiser: pode ir.” E você prontamente colocou sua mochila pouco pesada nas costas e partiu, sem nem olhar para trás. E então, finalmente eu entendi: esta foi uma história que você nunca quis verdadeiramente bancar e eu sou a companhia que você nunca desejou, de fato, ter.
Andei ensaiando te dizer as mesmas coisas de sempre em um tom diferente. Aconteceu que o tom não encontrei e assim, calei. Nesse silêncio me dei conta de que talvez essa fosse a única maneira de me fazer ser ouvida, e quem sabe, compreendida. Na verdade, nesse momento esse desejo já nem mais existia. Percebo claramente que a verborragia era só força do hábito. As palavras sempre foram a minha salvação e a minha perdição. Eu sei bem disso. Você também sabia. Mas o que fazer se sem elas eu me sentia tão solitária e até mesmo frágil? Elas eram a minha companhia mais fiel. Não, elas não me traíram e nem disseram “adeus” sem dar a menor explicação. Eu que resolvi dar uma folga à elas – à elas e ao meu coração.
Turismóloga. Cosmopolita de nascença. Leonina. Voluntariosa. Verborrágica. Olhar que berra. Silêncio categórico. Entrelinhas que se escondem no outro lado do óbvio. Reticências e pontos de interrogações infinitos. Prazer, Carolina!